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1 – Hails P., corrige-me se estiver enganado, mas creio que esta trata-se da primeira entrevista que dás em nome de Black Howling. É um prazer finalmente poder trocar algumas impressões contigo sobre Black Howling, o trabalho que tens na banda e sobre ti. Queria começar por te perguntar como começou Black Howling e o que é que tu vês em Black Howling (BH), ou seja, o que significa para ti a banda? Sei também que começaram sob o nome de Glória Eterna, algo que acabaram eventualmente por mudar e gostaria que me dissesses o porquê dessa mudança.

Hails. Esta não é a primeira entrevista de Black Howling. Já dei outras, para zines, mas nunca me chegou nada às mãos, seja porque as zines não saíram (ou ainda não saíram) ou sei lá mais por quê. Isso não me incomoda muito. Não respondo a entrevistas para receber zines de borla mas sim porque quando me disponho para receber entrevistas é porque tenho alguma necessidade de partilhar o meu “eu” para uma espécie de vazio seja em papel ou uma página Web, ou o que for. Gosto de expressar as minhas ideias quando tenho vontade de o fazer, por isso é bom quando a oportunidade de o fazer coincide com a disposição e abertura que tenho para responder a certas perguntas. Black Howling começou como um projecto solo, não meu, mas do A., por volta de 2001 e teve vários nomes. Eu ajudava na bateria programada ou então dava opiniões no trabalho que ele ia desenvolvendo sozinho com os métodos, primitivos, que tinha à disposição na altura. Em finais de 2002 resolvemos levar isto mais avante e tivemos o primeiro ensaio, assumidamente como banda, e não como projecto. Tanto eu, como ele não sabíamos o caminho que íamos seguir ou por onde íamos trilhar. Ainda me lembro desse primeiro ensaio. Encontrámo-nos numa tarde escura e chuvosa de Dezembro de 2002, se não me engano, e lá decidimos ir tocar qualquer coisa. Depois de termos assumido esta espécie de “pacto”, de sermos uma banda, o nome Black Howling ocorreu-me enquanto estava em casa. Fiz um logo que nunca foi usado, e mais tarde fiz outro que é o que a maior parte das pessoas conhecem porque é o que anda “por aí” na internet, mas não é o logo actual. O logo actual foi feito em 2004 / 2005 e é o que temos usado até agora. Não o pretendo mudar, gosto muito deste. Black Howling é uma banda pela qual nutro muito carinho pois tem uma grande parte de mim (assim como do camarada que toca comigo, A.) na música. Para além do mais é a banda que se manteve, mesmo perante todas as adversidades que possam ter surgido por parte de um suposto público. Facto é que, as opiniões nunca nos aqueceram nem arrefeceram muito. Sempre fizemos o que queríamos, como queríamos e a nossa música sempre foi sincera, porque sempre fomos sinceros connosco próprios. Algumas pessoas (as pessoas que não são próximas connosco) não sabem mas em finais de 2004 a banda teve uma quebra de actividades e acabou, porém, julgo que em meados de 2005 se não estou em erro, decidimos voltar. Distanciando-me deste acontecimento, olhando para trás, vejo que essa paragem foi boa. O som estava a tomar um bom rumo, estava a rumar aquilo que é hoje (e na verdade, continua a evoluir, não sei bem para onde…) mas na altura o guitarrista decidiu acabar e então acabámos… na altura, foi doloroso para mim e eu queria continuar com a banda, mas não com ele contrariado. Bem que me ocorreu encontrar outros membros mas o sentimento e a música não ia ser o mesmo, disso tenho a certeza. Depois de recomeçarmos já gravámos algumas coisas, umas já lançadas, outras ainda não… mas que a seu tempo irão com certeza sair cá para fora.

2 – Vou te ser sincero: O único trabalho que ouvi de Black Howling foi o primeiro e único longa-duração lançado por vocês até agora, “Alma… Uma Floresta de Dor” e mesmo assim nem foi através dos métodos legais. Todavia, posso-te confessar que já tenho encomendado a tape do split entre BH com Hypothermia, assim como ando incansavelmente à procura de “Alma… Uma Floresta de Dor”, tanto sob a forma de tape como de CDr. Isto porque o que ouvi neste primeiro álbum mexeu muito comigo, visto a sonoridade encontrada lá dentro ser bastante intensa e ao mesmo tempo humilde e singular. Este álbum foi lançado há apenas um ano, mas olhando para ele, neste momento, achas que a essência dele ficou captada da melhor maneira possível, da maneira que tu querias?

Acho que sim. Depois de o termos gravado, no espaço de 1 hora, ouvi o instrumental e gostei muito. Mas penso que a experiencia sónica do mesmo não bate a experiência emocional que foi gravá-lo (falo da parte instrumental, pois a voz é acrescentada à posterior). Para te dar uma ideia, tanto eu como o outro membro ficámos com a ideia de ter sido menos de 40 e picos minutos quando gravámos o álbum, a mim pareceu-me ter sido qualquer coisa à volta dos 20 e tal minutos. Ficámos impressionados quando tirámos a cassete do gravador e vimos que tínhamos ocupado quase 45 minutos de música apenas com uma faixa. Sentimo-nos bastante leves quando acabámos de gravar o instrumental do “Alma… uma Floresta de Dor” e essa é a sensação que procuro de cada vez que gravo algo de novo. Deixa-me só fazer-te uma pequena correcção, o “Alma… uma Floresta de Dor” não é o primeiro, mas sim o nosso segundo álbum, pois eu considero o “Forgotten Land, Throne and Crown” (apesar de pouca gente possuir a versão física do mesmo) um álbum e não uma demo… ainda em relação ao “Alma… uma Floresta de Dor”, estou a pensar em procurar uma editora para o re-editar como CD profissional, e aí sim, serão mais cópias… talvez o artwork seja diferente. Mas ainda não sei, logo se vê.


3 – Como frisei antes, o som encontrado em BH, pelo menos no álbum, é bastante poderoso, repleto de sentimentos e emoções negativas, tudo isto numa só faixa com a duração de aproximadamente 42 minutos. Sinto-me bastante curioso quanto ao processo de composição, tanto a nível lírico como instrumental. Sei que por exemplo no split com Hypothermia, lançado este ano, as faixas foram tocadas de improviso e o mesmo aconteceu em “Alma… Uma Floresta de Dor”, tendo ficado no álbum uma faixa comprida, mas muito boa. Podes me esclarecer quanto à maneira como BH compõe as canções que nos tem vindo a oferecer, desde o seu início?

Aí por volta de 2002 costumávamos ensaiar mais ou menos as músicas mas já havia qualquer coisa de improviso nas mesmas. Talvez sejamos um pouco indisciplinados e não gostemos de tocar presos a uma estrutura muito sólida. Talvez tenhamos preferência por deixar as coisas fluírem. Um facto é que o A. tornou-se num músico muito bom e tem muito boa capacidade de improvisação, por isso, das últimas vezes que gravámos já haviam alguns riffs feitos, mas eu não faço puto ideia da estrutura das músicas. Não faço ideia quantas vezes ele vai tocar os riffs nem o riff que vem a seguir etc. Mas por alguma razão que não sei explicar as coisas resultam bem, correm bem, não sei se é sorte se o que é. Eu cá prefiro chamar-lhe química, e acreditar nisso, quando tocamos. As músicas não são propriamente compostas, pelo menos, milimetricamente. Elas aparecem, são fruto de um “fazer”, são fruto da acção e do momento. E sendo o meu companheiro de banda tão bom músico (pelo menos eu assim o considero) não há dificuldade nenhuma para que as coisas corram bem, porque ele sabe “fazer”. No fundo, por vezes penso se não é mais mérito dele do que meu. Mas ambos damos uma parte de nós… e é isso que Black Howling é, uma banda, e não 2 membros. De facto nem deviam existir membros. Eles nem deviam ter face, nem serem conhecidos. Apenas o nome devia ser conhecido, a banda: Black Howling.

4 – Até hoje BH deram apenas um concerto, altura em que partilharam palco com Inverno Eterno e Hypothermia, pelo que foi uma opção vossa fazerem desse o único concerto dado pela banda (pelo menos até hoje). Tenho pena de não ter presenciado esse tal evento, decerto que terá sido uma noite única. Aliás, sei que foi verdadeiramente uma noite única, dado ter havido uma partilha de membros entre BH, Inverno Eterno e Hypothermia, algo que acabou por resultar na criação de algumas faixas de improviso, fornecendo um pouco mais de unicidade aos concertos. Sentiste-te bem em palco? Pergunto-te isto sabendo a dificuldade de tocar bateria e fazer a voz ao mesmo tempo. Vês como possível, testemunhar BH em palco num futuro relativamente próximo?

Senti-me bem em palco. Sinto-me bem a tocar em Black Howling. Não houve voz no concerto. Em Black Howling fui só eu na bateria, o A. na guitarra, e o Kim na voz, no primeiro tema do concerto. Em Hypothermia fui eu na bateria e o Kim na guitarra, no tema que o Kim foi para a voz foi o A. Fazer a guitarra e no tema que eu fiz voz, em Hypothermia, foi o vocalista de Inverno Eterno para a bateria. Continuo a achar, aparte da opinião do público e dos desrespeitos face às bandas que aconteceram nessa Noite, no ano passado, que foi especial. Talvez o público não tenha sabido aproveitar isso. Mas isso não me incomoda. Eles têm o direito de criticar as bandas, assim como as bandas têm o direito de criticar o público. Eles não são obrigados a gostar de nós e nós não somos obrigados a gostar deles. As pessoas provavelmente viram “Suécia” por baixo de Hypothermia, no flyer, e ficaram com o pito aos saltos a pensar que iam ouvir uma banda a-la At The Gates, Watain ou qualquer coisa do género. Penso que o problema foi algumas pessoas terem aparecido simplesmente sem saber com o que contar, não conhecendo as bandas, e seguindo o triste mote do “APOIEM AS BANDAS NACIONAIS. VÃO AOS MEUS CONCERTOS. COMPREM A MINHA DEMO.”… eu não pedi nada disto. Sempre vi a maior parte (não todas) das pessoas presentes como números para cobrir as despesas de termos trazido o Kim a Portugal para que o concerto de Hypothermia se pudesse realizar. Algumas pessoas sentiram-se lesadas? Temos pena. Não aparecessem às cegas, mas desrespeitar as bandas? Isso não é tolerável. Quem não queria ver, tinha bom remédio, pois, a porta era serventia da casa. Tenho a certeza de que houve umas quantas pessoas que conseguiram tirar partido da música, sentimento e atitude emanado pelas bandas. Falando no meu caso, eu não tenho por norma ir a concertos que não faço ideia de como são as bandas. Gosto de ter uma ideia, mesmo que uma ideia ténue de como as coisas possam acontecer nessa performance. Não sei se haverá concertos de Black Howling num futuro próximo. Já se falou numas coisas, mas não sei como será por isso não adianta estar aqui a dizer o que vai acontecer porque não sei. Mas conta mais, no “não haver” do que no “haver” concerto num futuro próximo.


5 – Sem querer estar a fazer alguma ligação a qualquer tipo de trend, vulgo moda, a verdade é que do pouco que ouvi de BH, é um som bastante melancólico e negativo, diria mesmo depressivo. Nalguns pontos, “Alma…” transpira tristeza (não no sentido pejorativo da palavra, mas no sentido emotivo) de uma maneira, não diria épica devido a ser um adjectivo algo positivo, mas talvez de maneira grandiosa. Intenso é realmente a palavra ideal para descrever o álbum. Mas no meio tantas bandas que hoje em dia decidem optar por copiar um género que foi tornado particularmente famoso há relativamente pouco tempo conhecido por suicidal/depressive black metal, é óptimo reconhecer que BH optou por fugir a essa sonoridade algo remoída e constantemente produzida, ajudando para isso um descarregar de uma panóplia de riffs magníficos, afiados e precisos. Deste modo vejo-me obrigado a perguntar-te de onde retiras as tuas maiores influências a nível musical e a outros níveis, se as tiveres?

Como deves calcular as influências vão mudando com os anos, e isso deve-se em muito a um amadurecimento pessoal, assim como a uma capacidade de absorção e uma aprendizagem para gostar e digerir músicas de outros estilos. Se em 2002 tinhamos como referências bandas como Satanic Warmaster, Burzum, Mütiilation, Absurd, Moonblood, Nargaroth, Seigneur Voland, Kristallnacht, etc. (apenas bandas de Black Metal) agora temos os horizontes bem mais alargados e algumas bandas já não fazem tanto parte do pequeno (e vasto) “universo” que construímos. Mas bandas como Burzum, Moonblood, Absurd e Nargaroth continuam lá… acrescentando agora também Hypothermia, por exemplo. É uma banda que ambos gostamos e que de certa forma nos inspira para criar, mas não acho que o nosso som tenha muito a ver com Hypothermia… é menos monótono. Ambos também gostamos de sons mais ambientais e post-rock. Inclusive o A. é grande fã de Pink Floyd, é uma das grandes referências dele, presentemente. Mas não… a banda não vai seguir este trend de bandas a misturar pop com Black Metal, que resulta em não-Black Metal (eu até gosto de Lifelover, Alcest, Joyless, Woods of Infinity… mas abomino as coisas que apareceram no myspace a seguir a isso, apenas porque viram que a “fórmula” resulta… para vender ou para ficar popular). Eu ouço música muito variada, mas muito variada mesmo. Não sou do tipo de gajo que ouve NSBM e para dizer que não ouve só aquilo, depois ouve Dark Folk, Ambient, Noise (que há certos destes projectos que por vezes até estão ligados ao NS ou usam uma imagética belicista ou alusiva à segunda guerra mundial, mesmo não sendo NS… talvez isso faça essas pessoas ouvirem esses projectos ou nutrirem alguma admiração pelos mesmos) e isso… bem, considero que ouço mais que isso, apesar de não ter nada contra este tipo de pessoas, pois, cada um é como é. Nesse aspecto acho que estou cada vez menos limitado. Mas o que ouço depende do meu estado de espírito… tanto posso passar por uma fase a ouvir maioritariamente Black Metal como passar por outra que ouço tudo menos Black Metal. Tanto posso ouvir pop (Madonna, Avril Lavigne, Tokio Hotel), como hip hop (o “Blunted on Reality” de Fugees, Public Enemy, Mr. T), como shoegaze (My Bloody Valentine, Mazzy Star, Slowdive), como contemporânea (Maja Ratkje, György Ligeti, Meredith Monk) , como ambient (William Basinski, Alva Noto, Mike Oldfield, Philip Glass) etc. etc. etc., e a lista é um pouco extensa…

6 – Há pouco tempo atrás tive a oportunidade de entrevistar o Nile da banda americana de black metal, Ossein, tendo previamente o conhecimento de que todos os três membros eram indivíduos algo singulares no que toca à esfera do black metal. Isto por terem um estilo de vida vegan (vegetariano), de promoverem o uso de substâncias e drogas, assim como terem ideais políticos liberais, tendo o Nile a bondade de me explicar o porquê disso tudo. Todavia, foi com alguma surpresa que descobri o facto de seres vegetariano. Poderias satisfazer a minha curiosidade e explicar o porquê de teres optado por este tipo de alimentação específico, algo que não é tão vulgar no espectro do black metal mas que se verifica acontecer mais junto das pessoas ligadas por exemplo ao punk/hardcore?

Vamos lá ver se consigo sintetizar isto. Basicamente o que me motivou foi o respeito pela Natureza… e pelos animais. Ponto final. Não é assim tão complicado, principalmente se tiveres fascínio pela vida selvagem e pelo mundo natural. Presentemente tenho uma atitude mais do tipo de “Não como porque não preciso / não sinto necessidade / não me faz diferença.”. A carne, hoje em dia, é um negócio como outro qualquer. Muitas pessoas comem o que comem sem sequer se questionarem de onde vem… por vezes julgo que nem sabem de onde vem. Pessoas que, elas mesmas, nem eram capazes de matar um animal para depois consumir. Mas nem me vou alongar muito nisto. Eu não procuro converter ninguém a nada, nem espalhar mensagem nenhuma de vegetarianismo ou veganismo ou outra forma alternativa de alimentação ou estilo de vida. Quem quiser que pense e que encontre as suas motivações, e sobretudo, que procure informação… pois eu não vou andar a espalhar panfletos. Posso-te dizer que sou vegetariano há aproximadamente 10 anos e nunca tive complicações, apenas perdi peso no princípio, mas recuperei mais tarde. Respeito muito mais as pessoas que vivem em zonas mais remotas e que matam animais para consumo próprio e que aproveitam tudo o que dá para aproveitar. Seguem muito mais aquilo a que eu chamo o “ciclo da terra”. Numa cidade as coisas são diferentes. Existem montes de alternativas hoje em dia e as pessoas parecem não as aproveitar. Mas é a tal coisa… as pessoas que comem animais têm as suas razões para isso… as que não comem idem. Acho que não vale a pena discutir-se essas coisas pois quem tem de tomar uma posição destas, toma-a mais cedo ou mais tarde (assim como é livre de a largar, quando quiser)… certamente há outros motivos de interesse em que as pessoas convergem e que podem falar umas com as outras e este tipo de discussão evita-se, e assim, estamos todos muito melhor. Relativamente a isto, nem eu estou certo, nem os outros estão errados. São opções, pura e simplesmente.


7 – Falando em punk/hardcore, a verdade é que tu tens as tuas raízes no punk, algo que tu próprio disseste, com bastante orgulho e que eu acho ser bastante louvável. Não é todos os dias que se encontra uma pessoa que não tem medo de assumir as suas origens, sem medo de sofrer represálias a variados níveis. Na verdade, o que importa é, a música que a pessoa faz e se de facto é sincera e honesta naquilo que faz, algo que acontece contigo no teu trabalho relacionado com BH e Mons Veneris por exemplo. Não posso deixar de perguntar contudo, como é que uma pessoa com raízes no punk, acaba por criar um projecto de black metal de cariz tão melancólico como é BH? Como ocorreu essa tua transição?

As minhas raízes, e, quando comecei a ouvir música mais underground, estão no punk / hardcore e no metal (na altura era mais o death metal). Mas os concertos que frequentava na altura (back in ‘98/’99 até ‘02/’03) eram mais de punk / hardcore, sem dúvida. Comecei a ir a concertos de metal mais tarde, e mesmo assim, hoje em dia nem vou a muitos, pois prefiro comprar CD’s, tapes, vinys do que ir a concertos. Mas afastei-me do punk / hardcore por razões óbvias… deixou de haver espírito e as bandas e o público começaram a andar ao rumo de trends que bandas e indivíduos “maiores” ditavam, na cena. Um pouco o que acontece também nalguns concertos de metal. Mas nem todos os concertos de hardcore têm falta de espírito. Julgo que foi o ano passado ou há 2 anos que fui a um ou dois concertos hardcore e gostei… mas também fui a um em Setúbal que foi uma autêntica bosta. Nem tanto por parte das bandas, porque as bandas são o que são, e o som que está agora em voga na cena hardcore já nada me diz, mas mais por causa do público que parecia que andava ali para se mostrar. De hardcore gosto de bandas mais old school a la Minor Threat, Black Flag, Bold ou então a onde finlandesa dos anos 80 estilo Terveet Kadet, Kaaos, Rattus, Kuolema… e isso já não se faz muito por cá, acho eu. De qualquer maneira estou afastado deste movimento, agora, embora possa ouvir umas coisas, esporadicamente, em casa. A razão para uma pessoa criar algo como Black Howling não foi transição nenhuma, mas na altura em que entrei na banda fui deixando de ouvir umas coisas e começando a ouvir outras. Ainda bem que agora consigo ouvir algumas coisas que ouvia antes e depois de começar a banda. É o tal amadurecimento de que falei. Mas voltando um pouco atrás… para criar algo como Black Howling, e tendo estado numa cena como a punk / hardcore… eu acho que as pessoas não têm personalidades nem gostos planos. Algumas pessoas são bem mais complexas do que se possa imaginar. Quer dizer, eu falo por mim, eu não tenho gostos planos. Eu não sou o indivíduo que ouve ou “só metal” ou “só hardcore” ou “só jazz”, etc. Das coisas que há… das coisas que se cruzam no meu caminho… tento filtrar, aproveitar as que são boas (leia-se: as que me agradam), e as menos boas não aproveito… descarto. Isto para dizer que uma pessoa não precisa de “ser do Black Metal” ou “ser do hardcore” ou “ser do …” para se sentir melancólica, depressiva, alegre, eufórica, apática, indiferente, etc. Mas é certo que alguns estilos puxam as personalidades das pessoas e as suas formas de ver o mundo para certos estereótipos, mas eu esforço-me para que isso não aconteça comigo, e das coisas que vejo, ouço, toco, tento aproveitar as que me interessam e que acho que de certa forma me podem ser úteis.

8 – É curioso notar que, apesar clima negativista que faz grande parte das pessoas dizer que “lá fora é que é bom” e que cá em Portugal “é tudo uma merda”, recentemente temos vindo a descobrir que a cena musical nacional é das melhores coisas que se pode encontrar, não só a nível de black metal. Mas falando em black metal, gostaria de frisar a qualidade de bandas portuguesas relativamente recentes como por exemplo Omitir, Nortada Gelada, Cripta Oculta, Crystalline Darkness, Penitência, Forgotten Winter, Pestilência e podia ficar aqui ainda mais um bocado, isto para não falar em BH. Sinto-me intrigado quanto à tua opinião acerca da situação do black metal nacional e penso que seria interessante saber o que achas actualmente do underground comparativamente com há por exemplo uma década atrás.

Eu não faço ideia como era a cena há duas décadas atrás por exemplo. Tenho uma ligeira ideia do que me contam, que era tudo muito bom, etc. Mas isso não passa de histórias de velhinhos do Restelo. Eu gosto de coisas dos anos 80, mas também gosto de coisas dos anos 70, 60, 50… 90??? 00??? Não tenho de estar entalado numa determinada década. Não é o “lá fora é que é bom” mas também não é o “cá dentro é que é”. Toda a gente sabe, ou pelo menos se não sabe, devia saber, que em todos os lados há bandas boas e bandas más. E penso que isso se aplica também a todas as décadas. Por exemplo, li numa entrevista ao Euronymous, em que ele dizia que não gostava dos Therion (se não me engano acho que até era a Therion que ele chamava de life metal)… também sei que não gostava de Bon Jovi e de outras da onda glam… e ele era um homem da altura (dos 80’s). Se houver por aí um gajo que goste de TUDO, mas digo mesmo, TUDO o que se fez nos anos 80, então ele que me desculpe, mas é um tanto ou quanto idiota. Agora, ter as bandas que se prefere numa determinada década, eu acho que até compreendo… e aceito (que remédio). Mas, não fugindo à questão… penso que não se pode comparar. Muita coisa mudou a nível social e tecnológico entretanto e isso tem impacto, para as pessoas ouvirem mais coisas, comprarem mais coisas (ou não..? para sacarem em p2p…). Em Portugal, como noutro país qualquer, há bandas boas e bandas más… há quem as saiba filtrar, como há quem coma tudo o que lhes dão para comer. Isso já vai de cada um.


9 – Muito recentemente BH lançou mais um split, o segundo este ano, desta vez com Marbh, uma banda portuguesa ainda muito pouco conhecida, algo que tenciono ouvir também com muita atenção. Apesar de ter conhecimento disto, nunca é demais perguntar sobre a eventualidade de um novo álbum por parte de BH, visto que poderia ser algo composto se as devidas condições fossem propiciadas, tal como aconteceu em “Alma…”. Sei que é uma pergunta algo difícil, mas vês como possível o lançamento do segundo álbum de BH já para o próximo ano ou isso é algo que não é pensado e que acontecesse apenas caso sejam reunidas as condições de que falei acima, dependendo apenas de factores externos à banda?


Boas notícias para ti, então. Já temos a guitarra e bateria gravada para o próximo álbum. Desta vez se tudo correr bem (e conto que daqui para frente assim seja) irá ter baixo. Não sei se irá ter segunda guitarra… isso logo se vê. Irá ter voz, isso é mais que certo, mas ainda não há letras. Ainda está tudo um bocado prematuro, mas lentamente as coisas começarão a ganhar forma. Julgando pelo instrumental, prefiro ao “Alma… uma Floresta de Dor”, porque já se notam outras nuances, outras influências a nível de som, que antes não se notavam. Não sei quando isto irá estar pronto, mas não temos pressa, não nos comprometemos com ninguém… mas até agora, o que gravámos, na minha opinião está muito bom… agrada-me muito. Se o resto (o público) não gostar, não me importa pois agrada-nos a nós… e agradar-nos a nós já nos faz felizes.


10 – Foi de facto um prazer poder fazer-te estas questões Lord Infaustum e espero num futuro próximo poder ver BH em carne e osso a tocar ao vivo. Queres dizer mais alguma coisa aos leitores da RMI?

Obrigado pelo apoio e pelo teu interesse em Black Howling.


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