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1 – Hails P., corrige-me se estiver
enganado, mas creio que esta trata-se da primeira entrevista
que dás em nome de Black Howling. É um prazer finalmente
poder trocar algumas impressões contigo sobre Black Howling,
o trabalho que tens na banda e sobre ti. Queria começar por
te perguntar como começou Black Howling e o que é que tu vês
em Black Howling (BH), ou seja, o que significa para ti a
banda? Sei também que começaram sob o nome de Glória Eterna,
algo que acabaram eventualmente por mudar e gostaria que me
dissesses o porquê dessa mudança.
Hails. Esta não é a primeira entrevista de Black
Howling. Já dei outras, para zines, mas nunca me chegou nada
às mãos, seja porque as zines não saíram (ou ainda não
saíram) ou sei lá mais por quê. Isso não me incomoda muito.
Não respondo a entrevistas para receber zines de borla mas
sim porque quando me disponho para receber entrevistas é
porque tenho alguma necessidade de partilhar o meu “eu” para
uma espécie de vazio seja em papel ou uma página Web, ou o
que for. Gosto de expressar as minhas ideias quando tenho
vontade de o fazer, por isso é bom quando a oportunidade de
o fazer coincide com a disposição e abertura que tenho para
responder a certas perguntas. Black Howling começou como um
projecto solo, não meu, mas do A., por volta de 2001 e teve
vários nomes. Eu ajudava na bateria programada ou então dava
opiniões no trabalho que ele ia desenvolvendo sozinho com os
métodos, primitivos, que tinha à disposição na altura. Em
finais de 2002 resolvemos levar isto mais avante e tivemos o
primeiro ensaio, assumidamente como banda, e não como
projecto. Tanto eu, como ele não sabíamos o caminho que
íamos seguir ou por onde íamos trilhar. Ainda me lembro
desse primeiro ensaio. Encontrámo-nos numa tarde escura e
chuvosa de Dezembro de 2002, se não me engano, e lá
decidimos ir tocar qualquer coisa. Depois de termos assumido
esta espécie de “pacto”, de sermos uma banda, o nome Black
Howling ocorreu-me enquanto estava em casa. Fiz um logo que
nunca foi usado, e mais tarde fiz outro que é o que a maior
parte das pessoas conhecem porque é o que anda “por aí” na
internet, mas não é o logo actual. O logo actual foi feito
em 2004 / 2005 e é o que temos usado até agora. Não o
pretendo mudar, gosto muito deste. Black Howling é uma banda
pela qual nutro muito carinho pois tem uma grande parte de
mim (assim como do camarada que toca comigo, A.) na música.
Para além do mais é a banda que se manteve, mesmo perante
todas as adversidades que possam ter surgido por parte de um
suposto público. Facto é que, as opiniões nunca nos
aqueceram nem arrefeceram muito. Sempre fizemos o que
queríamos, como queríamos e a nossa música sempre foi
sincera, porque sempre fomos sinceros connosco próprios.
Algumas pessoas (as pessoas que não são próximas connosco)
não sabem mas em finais de 2004 a banda teve uma quebra de
actividades e acabou, porém, julgo que em meados de 2005 se
não estou em erro, decidimos voltar. Distanciando-me deste
acontecimento, olhando para trás, vejo que essa paragem foi
boa. O som estava a tomar um bom rumo, estava a rumar aquilo
que é hoje (e na verdade, continua a evoluir, não sei bem
para onde…) mas na altura o guitarrista decidiu acabar e
então acabámos… na altura, foi doloroso para mim e eu queria
continuar com a banda, mas não com ele contrariado. Bem que
me ocorreu encontrar outros membros mas o sentimento e a
música não ia ser o mesmo, disso tenho a certeza. Depois de
recomeçarmos já gravámos algumas coisas, umas já lançadas,
outras ainda não… mas que a seu tempo irão com certeza sair
cá para fora.
2 – Vou te ser sincero: O único
trabalho que ouvi de Black Howling foi o primeiro e único
longa-duração lançado por vocês até agora, “Alma… Uma
Floresta de Dor” e mesmo assim nem foi através dos métodos
legais. Todavia, posso-te confessar que já tenho encomendado
a tape do split entre BH com Hypothermia, assim como ando
incansavelmente à procura de “Alma… Uma Floresta de Dor”,
tanto sob a forma de tape como de CDr. Isto porque o que
ouvi neste primeiro álbum mexeu muito comigo, visto a
sonoridade encontrada lá dentro ser bastante intensa e ao
mesmo tempo humilde e singular. Este álbum foi lançado há
apenas um ano, mas olhando para ele, neste momento, achas
que a essência dele ficou captada da melhor maneira
possível, da maneira que tu querias?
Acho que sim. Depois de o termos
gravado, no espaço de 1 hora, ouvi o instrumental e gostei
muito. Mas penso que a experiencia sónica do mesmo não bate
a experiência emocional que foi gravá-lo (falo da parte
instrumental, pois a voz é acrescentada à posterior). Para
te dar uma ideia, tanto eu como o outro membro ficámos com a
ideia de ter sido menos de 40 e picos minutos quando
gravámos o álbum, a mim pareceu-me ter sido qualquer coisa à
volta dos 20 e tal minutos. Ficámos impressionados quando
tirámos a cassete do gravador e vimos que tínhamos ocupado
quase 45 minutos de música apenas com uma faixa. Sentimo-nos
bastante leves quando acabámos de gravar o instrumental do
“Alma… uma Floresta de Dor” e essa é a sensação que procuro
de cada vez que gravo algo de novo. Deixa-me só fazer-te uma
pequena correcção, o “Alma… uma Floresta de Dor” não é o
primeiro, mas sim o nosso segundo álbum, pois eu considero o
“Forgotten Land, Throne and Crown” (apesar de pouca gente
possuir a versão física do mesmo) um álbum e não uma demo…
ainda em relação ao “Alma… uma Floresta de Dor”, estou a
pensar em procurar uma editora para o re-editar como CD
profissional, e aí sim, serão mais cópias… talvez o artwork
seja diferente. Mas ainda não sei, logo se vê.
3 – Como frisei antes, o som encontrado em BH, pelo
menos no álbum, é bastante poderoso, repleto de sentimentos
e emoções negativas, tudo isto numa só faixa com a duração
de aproximadamente 42 minutos. Sinto-me bastante curioso
quanto ao processo de composição, tanto a nível lírico como
instrumental. Sei que por exemplo no split com Hypothermia,
lançado este ano, as faixas foram tocadas de improviso e o
mesmo aconteceu em “Alma… Uma Floresta de Dor”, tendo ficado
no álbum uma faixa comprida, mas muito boa. Podes me
esclarecer quanto à maneira como BH compõe as canções que
nos tem vindo a oferecer, desde o seu início?
Aí por volta de 2002 costumávamos
ensaiar mais ou menos as músicas mas já havia qualquer coisa
de improviso nas mesmas. Talvez sejamos um pouco
indisciplinados e não gostemos de tocar presos a uma
estrutura muito sólida. Talvez tenhamos preferência por
deixar as coisas fluírem. Um facto é que o A. tornou-se num
músico muito bom e tem muito boa capacidade de improvisação,
por isso, das últimas vezes que gravámos já haviam alguns
riffs feitos, mas eu não faço puto ideia da estrutura das
músicas. Não faço ideia quantas vezes ele vai tocar os riffs
nem o riff que vem a seguir etc. Mas por alguma razão que
não sei explicar as coisas resultam bem, correm bem, não sei
se é sorte se o que é. Eu cá prefiro chamar-lhe química, e
acreditar nisso, quando tocamos. As músicas não são
propriamente compostas, pelo menos, milimetricamente. Elas
aparecem, são fruto de um “fazer”, são fruto da acção e do
momento. E sendo o meu companheiro de banda tão bom músico
(pelo menos eu assim o considero) não há dificuldade nenhuma
para que as coisas corram bem, porque ele sabe “fazer”. No
fundo, por vezes penso se não é mais mérito dele do que meu.
Mas ambos damos uma parte de nós… e é isso que Black Howling
é, uma banda, e não 2 membros. De facto nem deviam existir
membros. Eles nem deviam ter face, nem serem conhecidos.
Apenas o nome devia ser conhecido, a banda: Black Howling.
4 – Até hoje BH deram apenas um concerto, altura
em que partilharam palco com Inverno Eterno e Hypothermia,
pelo que foi uma opção vossa fazerem desse o único concerto
dado pela banda (pelo menos até hoje). Tenho pena de não ter
presenciado esse tal evento, decerto que terá sido uma noite
única. Aliás, sei que foi verdadeiramente uma noite única,
dado ter havido uma partilha de membros entre BH, Inverno
Eterno e Hypothermia, algo que acabou por resultar na
criação de algumas faixas de improviso, fornecendo um pouco
mais de unicidade aos concertos. Sentiste-te bem em palco?
Pergunto-te isto sabendo a dificuldade de tocar bateria e
fazer a voz ao mesmo tempo. Vês como possível, testemunhar
BH em palco num futuro relativamente próximo?
Senti-me bem em palco. Sinto-me
bem a tocar em Black Howling. Não houve voz no concerto. Em
Black Howling fui só eu na bateria, o A. na guitarra, e o
Kim na voz, no primeiro tema do concerto. Em Hypothermia fui
eu na bateria e o Kim na guitarra, no tema que o Kim foi
para a voz foi o A. Fazer a guitarra e no tema que eu fiz
voz, em Hypothermia, foi o vocalista de Inverno Eterno para
a bateria. Continuo a achar, aparte da opinião do público e
dos desrespeitos face às bandas que aconteceram nessa Noite,
no ano passado, que foi especial. Talvez o público não tenha
sabido aproveitar isso. Mas isso não me incomoda. Eles têm o
direito de criticar as bandas, assim como as bandas têm o
direito de criticar o público. Eles não são obrigados a
gostar de nós e nós não somos obrigados a gostar deles. As
pessoas provavelmente viram “Suécia” por baixo de
Hypothermia, no flyer, e ficaram com o pito aos saltos a
pensar que iam ouvir uma banda a-la At The Gates, Watain ou
qualquer coisa do género. Penso que o problema foi algumas
pessoas terem aparecido simplesmente sem saber com o que
contar, não conhecendo as bandas, e seguindo o triste mote
do “APOIEM AS BANDAS NACIONAIS. VÃO AOS MEUS CONCERTOS.
COMPREM A MINHA DEMO.”… eu não pedi nada disto. Sempre vi a
maior parte (não todas) das pessoas presentes como números
para cobrir as despesas de termos trazido o Kim a Portugal
para que o concerto de Hypothermia se pudesse realizar.
Algumas pessoas sentiram-se lesadas? Temos pena. Não
aparecessem às cegas, mas desrespeitar as bandas? Isso não é
tolerável. Quem não queria ver, tinha bom remédio, pois, a
porta era serventia da casa. Tenho a certeza de que houve
umas quantas pessoas que conseguiram tirar partido da
música, sentimento e atitude emanado pelas bandas. Falando
no meu caso, eu não tenho por norma ir a concertos que não
faço ideia de como são as bandas. Gosto de ter uma ideia,
mesmo que uma ideia ténue de como as coisas possam acontecer
nessa performance. Não sei se haverá concertos de Black
Howling num futuro próximo. Já se falou numas coisas, mas
não sei como será por isso não adianta estar aqui a dizer o
que vai acontecer porque não sei. Mas conta mais, no “não
haver” do que no “haver” concerto num futuro próximo.
5 – Sem querer estar a fazer alguma ligação a qualquer
tipo de trend, vulgo moda, a verdade é que do pouco
que ouvi de BH, é um som bastante melancólico e negativo,
diria mesmo depressivo. Nalguns pontos, “Alma…” transpira
tristeza (não no sentido pejorativo da palavra, mas no
sentido emotivo) de uma maneira, não diria épica devido a
ser um adjectivo algo positivo, mas talvez de maneira
grandiosa. Intenso é realmente a palavra ideal para
descrever o álbum. Mas no meio tantas bandas que hoje em dia
decidem optar por copiar um género que foi tornado
particularmente famoso há relativamente pouco tempo
conhecido por suicidal/depressive black metal, é óptimo
reconhecer que BH optou por fugir a essa sonoridade algo
remoída e constantemente produzida, ajudando para isso um
descarregar de uma panóplia de riffs magníficos, afiados e
precisos. Deste modo vejo-me obrigado a perguntar-te de onde
retiras as tuas maiores influências a nível musical e a
outros níveis, se as tiveres?
Como deves calcular as influências vão mudando com os anos,
e isso deve-se em muito a um amadurecimento pessoal, assim
como a uma capacidade de absorção e uma aprendizagem para
gostar e digerir músicas de outros estilos. Se em 2002
tinhamos como referências bandas como Satanic Warmaster,
Burzum, Mütiilation, Absurd, Moonblood, Nargaroth, Seigneur
Voland, Kristallnacht, etc. (apenas bandas de Black Metal)
agora temos os horizontes bem mais alargados e algumas
bandas já não fazem tanto parte do pequeno (e vasto)
“universo” que construímos. Mas bandas como Burzum,
Moonblood, Absurd e Nargaroth continuam lá… acrescentando
agora também Hypothermia, por exemplo. É uma banda que ambos
gostamos e que de certa forma nos inspira para criar, mas
não acho que o nosso som tenha muito a ver com Hypothermia…
é menos monótono. Ambos também gostamos de sons mais
ambientais e post-rock. Inclusive o A. é grande fã de Pink
Floyd, é uma das grandes referências dele, presentemente.
Mas não… a banda não vai seguir este trend de bandas a
misturar pop com Black Metal, que resulta em não-Black Metal
(eu até gosto de Lifelover, Alcest, Joyless, Woods of
Infinity… mas abomino as coisas que apareceram no myspace a
seguir a isso, apenas porque viram que a “fórmula” resulta…
para vender ou para ficar popular). Eu ouço música muito
variada, mas muito variada mesmo. Não sou do tipo de gajo
que ouve NSBM e para dizer que não ouve só aquilo, depois
ouve Dark Folk, Ambient, Noise (que há certos destes
projectos que por vezes até estão ligados ao NS ou usam uma
imagética belicista ou alusiva à segunda guerra mundial,
mesmo não sendo NS… talvez isso faça essas pessoas ouvirem
esses projectos ou nutrirem alguma admiração pelos mesmos) e
isso… bem, considero que ouço mais que isso, apesar de não
ter nada contra este tipo de pessoas, pois, cada um é como
é. Nesse aspecto acho que estou cada vez menos limitado. Mas
o que ouço depende do meu estado de espírito… tanto posso
passar por uma fase a ouvir maioritariamente Black Metal
como passar por outra que ouço tudo menos Black Metal. Tanto
posso ouvir pop (Madonna, Avril Lavigne, Tokio Hotel), como
hip hop (o “Blunted on Reality” de Fugees, Public Enemy, Mr.
T), como shoegaze (My Bloody Valentine, Mazzy Star, Slowdive),
como contemporânea (Maja Ratkje, György Ligeti, Meredith
Monk) , como ambient (William Basinski, Alva Noto, Mike
Oldfield, Philip Glass) etc. etc. etc., e a lista é um pouco
extensa…
6 – Há pouco tempo atrás tive a
oportunidade de entrevistar o Nile da banda americana de
black metal, Ossein, tendo previamente o conhecimento de que
todos os três membros eram indivíduos algo singulares no que
toca à esfera do black metal. Isto por terem um estilo de
vida vegan (vegetariano), de promoverem o uso de substâncias
e drogas, assim como terem ideais políticos liberais, tendo
o Nile a bondade de me explicar o porquê disso tudo.
Todavia, foi com alguma surpresa que descobri o facto de
seres vegetariano. Poderias satisfazer a minha curiosidade e
explicar o porquê de teres optado por este tipo de
alimentação específico, algo que não é tão vulgar no
espectro do black metal mas que se verifica acontecer mais
junto das pessoas ligadas por exemplo ao punk/hardcore?
Vamos lá ver se consigo sintetizar
isto. Basicamente o que me motivou foi o respeito pela
Natureza… e pelos animais. Ponto final. Não é assim tão
complicado, principalmente se tiveres fascínio pela vida
selvagem e pelo mundo natural. Presentemente tenho uma
atitude mais do tipo de “Não como porque não preciso / não
sinto necessidade / não me faz diferença.”. A carne, hoje em
dia, é um negócio como outro qualquer. Muitas pessoas comem
o que comem sem sequer se questionarem de onde vem… por
vezes julgo que nem sabem de onde vem. Pessoas que, elas
mesmas, nem eram capazes de matar um animal para depois
consumir. Mas nem me vou alongar muito nisto. Eu não procuro
converter ninguém a nada, nem espalhar mensagem nenhuma de
vegetarianismo ou veganismo ou outra forma alternativa de
alimentação ou estilo de vida. Quem quiser que pense e que
encontre as suas motivações, e sobretudo, que procure
informação… pois eu não vou andar a espalhar panfletos.
Posso-te dizer que sou vegetariano há aproximadamente 10
anos e nunca tive complicações, apenas perdi peso no
princípio, mas recuperei mais tarde. Respeito muito mais as
pessoas que vivem em zonas mais remotas e que matam animais
para consumo próprio e que aproveitam tudo o que dá para
aproveitar. Seguem muito mais aquilo a que eu chamo o “ciclo
da terra”. Numa cidade as coisas são diferentes. Existem
montes de alternativas hoje em dia e as pessoas parecem não
as aproveitar. Mas é a tal coisa… as pessoas que comem
animais têm as suas razões para isso… as que não comem idem.
Acho que não vale a pena discutir-se essas coisas pois quem
tem de tomar uma posição destas, toma-a mais cedo ou mais
tarde (assim como é livre de a largar, quando quiser)…
certamente há outros motivos de interesse em que as pessoas
convergem e que podem falar umas com as outras e este tipo
de discussão evita-se, e assim, estamos todos muito melhor.
Relativamente a isto, nem eu estou certo, nem os outros
estão errados. São opções, pura e simplesmente.
7 – Falando em punk/hardcore, a verdade é que tu tens as
tuas raízes no punk, algo que tu próprio disseste, com
bastante orgulho e que eu acho ser bastante louvável. Não é
todos os dias que se encontra uma pessoa que não tem medo de
assumir as suas origens, sem medo de sofrer represálias a
variados níveis. Na verdade, o que importa é, a música que a
pessoa faz e se de facto é sincera e honesta naquilo que
faz, algo que acontece contigo no teu trabalho relacionado
com BH e Mons Veneris por exemplo. Não posso deixar de
perguntar contudo, como é que uma pessoa com raízes no punk,
acaba por criar um projecto de black metal de cariz tão
melancólico como é BH? Como ocorreu essa tua transição?
As minhas raízes, e, quando
comecei a ouvir música mais underground, estão no punk /
hardcore e no metal (na altura era mais o death metal). Mas
os concertos que frequentava na altura (back in ‘98/’99 até
‘02/’03) eram mais de punk / hardcore, sem dúvida. Comecei a
ir a concertos de metal mais tarde, e mesmo assim, hoje em
dia nem vou a muitos, pois prefiro comprar CD’s, tapes,
vinys do que ir a concertos. Mas afastei-me do punk /
hardcore por razões óbvias… deixou de haver espírito e as
bandas e o público começaram a andar ao rumo de trends que
bandas e indivíduos “maiores” ditavam, na cena. Um pouco o
que acontece também nalguns concertos de metal. Mas nem
todos os concertos de hardcore têm falta de espírito. Julgo
que foi o ano passado ou há 2 anos que fui a um ou dois
concertos hardcore e gostei… mas também fui a um em Setúbal
que foi uma autêntica bosta. Nem tanto por parte das bandas,
porque as bandas são o que são, e o som que está agora em
voga na cena hardcore já nada me diz, mas mais por causa do
público que parecia que andava ali para se mostrar. De
hardcore gosto de bandas mais old school a la Minor Threat,
Black Flag, Bold ou então a onde finlandesa dos anos 80
estilo Terveet Kadet, Kaaos, Rattus, Kuolema… e isso já não
se faz muito por cá, acho eu. De qualquer maneira estou
afastado deste movimento, agora, embora possa ouvir umas
coisas, esporadicamente, em casa. A razão para uma pessoa
criar algo como Black Howling não foi transição nenhuma, mas
na altura em que entrei na banda fui deixando de ouvir umas
coisas e começando a ouvir outras. Ainda bem que agora
consigo ouvir algumas coisas que ouvia antes e depois de
começar a banda. É o tal amadurecimento de que falei. Mas
voltando um pouco atrás… para criar algo como Black Howling,
e tendo estado numa cena como a punk / hardcore… eu acho que
as pessoas não têm personalidades nem gostos planos. Algumas
pessoas são bem mais complexas do que se possa imaginar.
Quer dizer, eu falo por mim, eu não tenho gostos planos. Eu
não sou o indivíduo que ouve ou “só metal” ou “só hardcore”
ou “só jazz”, etc. Das coisas que há… das coisas que se
cruzam no meu caminho… tento filtrar, aproveitar as que são
boas (leia-se: as que me agradam), e as menos boas não
aproveito… descarto. Isto para dizer que uma pessoa não
precisa de “ser do Black Metal” ou “ser do hardcore” ou “ser
do …” para se sentir melancólica, depressiva, alegre,
eufórica, apática, indiferente, etc. Mas é certo que alguns
estilos puxam as personalidades das pessoas e as suas formas
de ver o mundo para certos estereótipos, mas eu esforço-me
para que isso não aconteça comigo, e das coisas que vejo,
ouço, toco, tento aproveitar as que me interessam e que acho
que de certa forma me podem ser úteis.
8 – É
curioso notar que, apesar clima negativista que faz grande
parte das pessoas dizer que “lá fora é que é bom” e que cá
em Portugal “é tudo uma merda”, recentemente temos vindo a
descobrir que a cena musical nacional é das melhores coisas
que se pode encontrar, não só a nível de black metal. Mas
falando em black metal, gostaria de frisar a qualidade de
bandas portuguesas relativamente recentes como por exemplo
Omitir, Nortada Gelada, Cripta Oculta, Crystalline Darkness,
Penitência, Forgotten Winter, Pestilência e podia ficar aqui
ainda mais um bocado, isto para não falar em BH. Sinto-me
intrigado quanto à tua opinião acerca da situação do black
metal nacional e penso que seria interessante saber o que
achas actualmente do underground comparativamente com há por
exemplo uma década atrás.
Eu
não faço ideia como era a cena há duas décadas atrás por
exemplo. Tenho uma ligeira ideia do que me contam, que era
tudo muito bom, etc. Mas isso não passa de histórias de
velhinhos do Restelo. Eu gosto de coisas dos anos 80, mas
também gosto de coisas dos anos 70, 60, 50… 90??? 00??? Não
tenho de estar entalado numa determinada década. Não é o “lá
fora é que é bom” mas também não é o “cá dentro é que é”.
Toda a gente sabe, ou pelo menos se não sabe, devia saber,
que em todos os lados há bandas boas e bandas más. E penso
que isso se aplica também a todas as décadas. Por exemplo,
li numa entrevista ao Euronymous, em que ele dizia que não
gostava dos Therion (se não me engano acho que até era a
Therion que ele chamava de life metal)… também sei que não
gostava de Bon Jovi e de outras da onda glam… e ele era um
homem da altura (dos 80’s). Se houver por aí um gajo que
goste de TUDO, mas digo mesmo, TUDO o que se fez nos anos
80, então ele que me desculpe, mas é um tanto ou quanto
idiota. Agora, ter as bandas que se prefere numa determinada
década, eu acho que até compreendo… e aceito (que remédio).
Mas, não fugindo à questão… penso que não se pode comparar.
Muita coisa mudou a nível social e tecnológico entretanto e
isso tem impacto, para as pessoas ouvirem mais coisas,
comprarem mais coisas (ou não..? para sacarem em p2p…). Em
Portugal, como noutro país qualquer, há bandas boas e bandas
más… há quem as saiba filtrar, como há quem coma tudo o que
lhes dão para comer. Isso já vai de cada um.
9 – Muito recentemente BH lançou mais um split,
o segundo este ano, desta vez com Marbh, uma banda
portuguesa ainda muito pouco conhecida, algo que tenciono
ouvir também com muita atenção. Apesar de ter conhecimento
disto, nunca é demais perguntar sobre a eventualidade de um
novo álbum por parte de BH, visto que poderia ser algo
composto se as devidas condições fossem propiciadas, tal
como aconteceu em “Alma…”. Sei que é uma pergunta algo
difícil, mas vês como possível o lançamento do segundo álbum
de BH já para o próximo ano ou isso é algo que não é pensado
e que acontecesse apenas caso sejam reunidas as condições de
que falei acima, dependendo apenas de factores externos à
banda?
Boas notícias
para ti, então. Já temos a guitarra e bateria gravada para o
próximo álbum. Desta vez se tudo correr bem (e conto que
daqui para frente assim seja) irá ter baixo. Não sei se irá
ter segunda guitarra… isso logo se vê. Irá ter voz, isso é
mais que certo, mas ainda não há letras. Ainda está tudo um
bocado prematuro, mas lentamente as coisas começarão a
ganhar forma. Julgando pelo instrumental, prefiro ao “Alma…
uma Floresta de Dor”, porque já se notam outras nuances,
outras influências a nível de som, que antes não se notavam.
Não sei quando isto irá estar pronto, mas não temos pressa,
não nos comprometemos com ninguém… mas até agora, o que
gravámos, na minha opinião está muito bom… agrada-me muito.
Se o resto (o público) não gostar, não me importa pois
agrada-nos a nós… e agradar-nos a nós já nos faz felizes.
10 – Foi de facto um prazer poder fazer-te estas
questões Lord Infaustum e espero num futuro próximo poder
ver BH em carne e osso a tocar ao vivo. Queres dizer mais
alguma coisa aos leitores da RMI?
Obrigado pelo apoio e pelo teu interesse em Black
Howling.
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Reviews:
Alma
Split c/ Marbh
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