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Entrevista a Crystalline Darkness pela Ritualis Metallum Infernalium:

A RMI teve a oportunidade de falar com Demoniac dos Crystalline Darkness, que não teve problema em responder-nos a algumas questões sobre a sua primeira actuação ao vivo, a demo "Melancólica Nostalgia", futuros trabalhos, entre outras coisas. Aqui fica essa entrevista, então:


1 – Primeiro que tudo obrigado por teres aceite o nosso convite para uma entrevista.
Gostava que nos contasses um pouco da história por detrás da criação deste teu
recentíssimo e primeiro projecto como banda de black metal, de nome Crystalline Darkness.


Crystalline Darkness nasceu com o propósito de transformar os meus sentimentos em música. A ideia é não existirem limites, não existir uma direcção musical/percurso comum. Crystalline Darkness é algo abstracto que pode ser interpretado de diversas formas perante o ouvinte e até mesmo por mim. Aliás aqui reside o facto de eu querer
levar C.D. até ao fim comigo, dado que eu estou sempre em constante transformação até me encontrar.
Em relação ao facto de C.D. ser o meu primeiro projecto está errado, antes existiu algo chamado "Angústia" que eu resolvi parar, dado que não me andava a satisfazer e na altura não tinha também capacidade para dar a textura que queria para a música em questão.

2 – Neste momento, os Crystalline Darkness possuem um lançamento, a demo de nome “Melancólica Nostalgia”, que para mim se mostra como uma lufada de ar fresco dentro do género do black metal actual. Naturalmente que te deves sentir algo orgulhoso, de ter colocado cá fora, juntamente com o Funeriis (baterista), um trabalho, uma criação com o teu cunho pessoal. Sentes que o resultado final da demo corresponde às tuas expectativas? Por outras palavras, o trabalho está exactamente como tu querias?

Orgulho só se for por ter sido o mais honesto possível. Jamais baseio os meus objectivos em termos de aceitação ou apoio. C.D. existe porque caso não existisse acabaria por canalizar determinadas emoções e acções de uma forma que não seria tão saudável para mim e provavelmente iria por termo há minha existência mais cedo que esta minha decisão me irá levar(que assim seja).
Eu não acho a demo assim tão original como isso, pessoalmente encaro-a como uma mistura entre Mütiilation e Leviathan, duas das bandas que mais me consomem. Aliás todas as primeiras demos são sempre um espelho do que mais apreciamos no estilo em questão. É muito difícil uma banda encontrar logo o seu canto na 1ª demo(basta olhar para trás). Contudo acho que essas observações têm a ver da maneira como a voz saiu e muito possivelmente as letras, que como já mencionei são abstractas tal como a musica pretende ser. Claramente nasceu tudo de um forro muito emocional e pessoal. Tendo 70% da demo nascido de pura improvisação, o que levou a uma honestidade extrema de nossa parte.
Se o trabalho está como eu queria ? Honestamente digo que sim, tem a produção que eu quis para ela, passado 1 ano e mais alguns meses ainda me toca e me faz querer ouvi-la como se fosse a primeira vez (e isso é tudo o que importa).

3 – Se tivesses de escolher uma faixa preferida, qual escolhias e porquê?

A faixa "Melancólica Nostalgia" é a minha eleita. Dado terem sido aqueles primeiros 2 riffs que me fizeram ligar o microfone e colocar em frente ao amplificador e deixar
fluir o resto da musica, como da demo. Foi um momento bastante intenso que tenho pena de não acontecer muito mais vezes, mas a partir daí tornou-se um "vicio" do querer sentir daquela forma.

4 – Ainda relativamente à demo “Melancólica Nostalgia”, de onde surgiu a inspiração para compor os seus temas a nível instrumental e lírico? Foi algo previamente pensado por vocês ou maioritariamente saiu de improviso num dos vossos ensaios?

A nível instrumental, como já disse, foi exclusivamente de improviso, tirando uma excepção da qual já vou tratar. As letras de certa forma também foram improvisos, pois da mesma maneira que senti aquele mal-estar ao criar os improvisos musicais, ouve alturas em que disse "vou escrever isto no papel" e as coisas fluíram de uma forma muito natural. Nunca existiram ensaios das musicas da 1ª demo. Simplesmente depois de mostrar os improvisos ao Funeriis eu re-gravei os riffs (respeitando a ordem e as repetições da improvisação) dentro de tempo, dado a improvisação ter sido algo caótico, mais tarde o Funeriis em estúdio gravou a bateria, mal tendo ouvido os temas, foi puro instinto.
A única faixa que não nasceu na mesma noite que as restantes foi a "Abismo Ascendente" que nasceu de um acontecimento com o Phobos, que me chamou bastante e numa noite acabei por compor a faixa. Ao mostrar-lhe a faixa disse-lhe que queria chamar-lhe "abismo ascendente" e o mesmo decidiu fazer as letras, que acabaram por colar-se muito ao meu passado de uma forma quase bizarra (sendo o Phobos um não conhecedor do mesmo) e assim nasceu essa musica.

5 – Conta-nos um pouco de como decorreram as gravações de Melancólica Nostalgia. Houve algum tipo de contratempos durante a sua produção, edição ou divulgação?

Tenho que admitir que tive muita sorte, dado que tive o auxilio ideal para as gravações, foi o estúdio perfeito. Em termos de produção fui eu que fiz, apenas com algumas dicas de alguém que já tinha lidado com o assunto. Quanto à divulgação, não poderia ter ocorrido melhor acordo para uma primeira demo. A Hell War(que depois mudou o nome para Herege Warfare Prod) disse que gostava de lançar a demo juntamente com a Antihumanism(da Bélgica) limitada a 500 cópias, o que eu acho suficiente para pairar pelo underground fora durante uns bons 4-5 anos (dado a extrema despreocupação que o underground tem vindo a ter na compra de demos, especialmente quando não conhecem as bandas - modas).
Ainda tive a oportunidade de criar a capa, que foi baseada num desenho representativo de toda a demo e da dita nostalgia por mim retratada.

6 – A "Melancólica Nostalgia" saiu em Janeiro de 2008. Como tem estado a ser recebida a demo, pelo público em geral? Têm tido opiniões diversas ou tem havido algum consenso no feedback das pessoas que ouviram?

Honestamente não me preocupo muito com isso, mas temos recebido boas reviews. O Roger da HWP tem me mandado algumas por correio e a única má que recebi, foi de alguém que admite não gostar de Black Metal. Como já disse anteriormente não é um factor importante para mim, independentemente das pessoas apoiarem ou não C.D. irá sempre existir da mesma forma e com a mesma intensidade.
Acho que a prova de eu não me preocupar com o que os outros dizem ou pensam é estar constantemente a fazer algo diferente na banda e as próximas musicas iram ser um espelho disso.

7 - Creio que já não se encontram à venda muitas das tapes de “Melancólica Nostalgia”.
Consideram possível a re-edição da demo? Tratando-se de um lançamento relativamente longo no seu tempo de duração, ultrapassando a marca dos 32 minutos, ponderam a hipótese de fazer uma re-edição no formato CD-R ou LP algum dia?


Acho que esta demo tem muitas cópias ainda para vender, são 500 cópias. 300 delas espalhadas pelo nosso País (sensivelmente) e outras 200 que estão a ser distribuídas pela Antihumanism (Bélgica). Dado ao mundo actual com que o underground se depara, especialmente no BM, nascerem 20 bandas iguais todos os minutos de um dia. Creio que a demo irá andar por ai durante uns largos anos. Já me deparei com a mesma à venda em numerosas distribuidoras de fora o que foi do meu agrado, pois embora C.D. não exista pelos outros nem para os outros. Eu decidi divulgar C.D. como um acto simbólico de contribuição para o underground de BM, que tanto me deu e alimentou durante estes anos. Acho que foi uma decisão natural querer tornar o projecto tão publico é no fundo estar a alimentar uma chama que me diz muito, que é fazer Black Metal. Embora para muitos isto signifique existir para os outros, para mim nada tem a ver. É me igual que venda 10 cópias ou 1000 desde que exista, está lá é o meu marco.

8 – Em breve irão ter o vosso concerto de estreia, abrindo juntamente com Corpus Christii, para os conhecidos Inquisition, no seu regresso a Lisboa após alguns anos.
Existe alguma pressão, pelo facto de terem que tocar no mesmo palco com Corpus Christii e Inquisition, ambas bandas já com algum renome e alguns anos de existência, 10 e 20 respectivamente, para ser mais preciso?


Pressão não existe nenhuma, existe sim grande orgulho e honra em estar a vingar nos palcos pela 1ª vez com duas bandas que eu adoro e sempre apoiei desde o primeiro momento, em que as ouvi.
Acho que vai ser um momento interessante e bastante emocional. Iremos apresentar tanto o material da 1ª demo como algo novo. Admito que estou bastante entusiasmado em tocar o novo material, pois é algo que considero atípico ao que se faz em portugal (de certa forma) e me preenche ainda mais que o material anterior. Este entusiasmo provém também do facto de confiar muito nos músicos de sessão e de ter a possibilidade de estar livre apenas com o cargo das vocalizações.
Quem espera ouvir as musicas da 1ª demo como ouviu em casa, está um bocado enganado, dado que existiram diferenças, que para mim iram provir da extrema honestidade que todos os membros em palco têm para com as mesmas.

9 – Com este lançamento, vocês demonstram uma clara fuga ao marasmo que define muitas das bandas de black metal hoje em dia, pelo mundo fora. Conseguem apresentar argumentos que vos definem dos demais, incutindo uma sonoridade original e diferente do que se está habituado a ouvir no black metal. Que achas tu da situação do black metal a nível nacional? Qual banda aconselharias a ouvir e a ter em conta aos leitores?

Eu acho que a nível nacional, estamos cada vez melhor! Nestes últimos anos temos vindo a observar bandas novas, com bons lançamentos e prestações ao vivo e as que já cá estavam continuam a vingar bem o seu nome.
Eu não aconselho nada, pois eu raramente encontro alguém que tenha os mesmos gostos que eu. Posso adiantar que tenho seguido o trabalho de Black Howling,Morte
Incandescente, Onirik, Penitência, Cripta Oculta e Inverno Eterno. São bandas que eu gosto bastante e admiro pela sua honestidade.
Em relação a bandas mesmo recentes, recomendo: Pestilência, Tumulum, Imperivm e Mourning Lenore

10 – Ainda acerca da sonoridade da tua banda, creio que o termo black metal se torna algo redutor, devido à variedade em termos sonoros encontrados na demo de estreia.
Todavia o rótulo “ambient black metal” não destoa de todo do vosso som. Concordas com isso? Qual o rótulo que te parece mais adequado, se é que existe, para definir o vosso som?


Eu acho que definir um nome para o que se faz (num todo) é errado, pois é algo muito redutor, desde o inicio.
Para promover essa 1ª demo, acho que é apropriado, dado como já disse termos uma influência de Mütiilation e de Leviathan/Lurker of Chalice, que são uma mistura de
black com black metal ambiental, respectivamente.
Contudo falando já no par de horas que temos para gravar, iremos incluir mesmo outro tipo de influências e mesmo de musica para musica o ambiente varia, quase de uma forma drástica. Isto para mim é mais que óbvio para C.D. O futuro de C.D. é como a sua musica, que é ser abstracto.
Daí o melhor rótulo para nós ser mesmo "Abstracto"(que é provavelmente o pior rótulo de sempre - mas que espalha a mensagem que não devem existir rótulos em bandas, talvez só em artigos singulares da mesma banda).

11 – Tenho para ti agora, uma pergunta um pouco mais pessoal: Tens algum tipo de crença a nível de divindades? Qual a tua opinião sobre o cristianismo? Pergunto-te isto, devido à conotação geralmente satânica que povoa a mente das pessoas, acerca do black metal.

O que dizes é bastante verdade, black metal é musica satânica. Contudo acho que com o passar dos tempos, deixou de existir uma necessidade de o satanismo ser considerado como apenas uma luta contra o cristianismo (entre outras religiões). Para mim o satanismo é algo mais abstracto e que funciona como um caminho mais terra a terra para se seguir. O meu satanismo não tem deuses, apenas tem ódio, um código de honra. Talvez o perfeito equilíbrio entre emoção e razão.
É neste sentido que caminha C.D. algo que foge a religiões e movimentos Ortodoxos (que já existem em demasia, noutras bandas, para ser sincero.), em C.D. reina um mundo de apatia, sofrimento, ódio e por vezes alguma serenidade no meio de tanta emoção negativa. Daqui provém o nosso meio abstracto, pois quando muitos precisam de uma guia religiosa para seguir as suas vidas e ter o seu "chão"/equilíbrio, nós nos baseamos apenas quase numa emoção negativa que abrange os mais diversos "sabores" e estou estou certo que um satanista extremo, clássico do underground de BM poderá se sentir em casa, tal como um ateu ou alguém que está prestes a deixar a realidade para sempre.
Opinião sobre o cristianismo ? Pessoalmente acho que é um conto de fadas para entreter aqueles que se sentem confusos sobre si mesmos e a sua razão de ser num mundo rodeado de um caos matemático que está além de qualquer compreensão religiosa e até mesmo humana. Acho que a única lei para existir é não ter leis, não ter condicionalismos...mas falar é fácil....viver já é outra história.

12 – Quais as bandas ou pessoas que tens como referência para ti e quais os álbuns que mais te influenciaram ao longo dos anos?

Isso é uma pergunta muito complicada para mim, dado existirem tantos por onde escolher. Vou tentar ser resumido ao máximo.

- Todos os trabalhos do Wrest (Leviathan, LoC e Gifthorse).
- Mütiilation (por ter vencido a barreira do tempo, amo tanto o antes como o depois, Vampires of Black Imperial Blood e o Remains of a Cursed Dead Soul são os albums que mais oiço faz anos)
- Todo o movimento das Les Legion Noire, era capaz de ficar horas a falar sobre este movimento e o quanto mudou a minha percepção do que é realmente musica
- Blut Aus Nord (em especial "The Work ..."), Abigor (em especial, "From the Twilight Kingdom") e Burzum ("Det Som Engang Var" - principalmente)
- Ved Buens Ende e bandas avant-garde como Fleurety e Celtic Frost.

Fugindo ao mundo do black metal e focando no metal em geral e noutros mundos sem ser o metal: Black Sabbath, Led Zeppelin, King Crimson, Death in June, Joy Division e
António Variações entre muitas outras bandas

13 – Naturalmente que sendo uma banda ainda bastante recente, provavelmente ainda não pensaram nisto, mas que me dizes à hipótese de criação de t-shirts de Crystalline Darkness? Qual seria a sensação de estares por exemplo na rua e veres uma pessoas a passar com uma t-shirt da tua banda?

Honestamente ver uma t-shirt minha numa pessoa que não conheço é algo que não tem grande impacto em mim. Acho que tem sim algum valor, quando é um respeito mutuo entre bandas ou conhecemos essa pessoa e temos uma noção do significado que tem para a mesma.
Mas isto é tudo muito subjectivo, pois como já dei a entender, nós não somos uma banda comum, não queremos uma legião de fãs, somos bastante atípicos, estamos aqui porque existe um necessidade de o ser - sendo neste caso a minha escapatória, como já referi mais acima também.

Contudo não é algo que eu não tenha algum brio em querer fazer, provavelmente no futuro irá existir, mas não por existir. Será como um lançamento de C.D. - algo com significado para nós. Fazer t-shirts para dar $$$ à banda única e exclusivamente, não obrigado.

14 – Obrigado por teres acedido a esta entrevista. Tens mais alguma coisa a comunicar aos leitores?

Acho que é altura de estancar esta corrente de trends que se anda a abranger pelo underground, tanto por quem ouve como por quem cria. Não comprem porque é original ou porque todos gostam, mas sim porque vos diz algo! Invistam no que realmente tem valor não em algo que passado uns anos digam "já me passou essa moda, vou mas é seguir estes agora". Quando se ama música, não existe espaço para as bandas a adorar, quando este adorar é honesto e puro.

"Let yourself rot in this twilight of fake happiness"


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